Um 7 de setembro sem índio nem Mércio

10 de Setembro de 2010


 

Uma amiga — negra, aliás;  ou melhor, cafuza: a raça do Quilombo de Palmares — cursando história numa universidade olindense falou-me estes dias da acirrada disputa que estava a travar com um professor que lhe tentava impingir aquele tradicional cenário do Brasil “recém-descoberto”: um país quase despovoado, índios animalescos e preguiçosos, portugueses bonzinhos e lindos — claro! — ansiosos por salvar aquela terra largada às ervas-daninhas e às cobras — é incrível como gente assim  sempre tem cisma com cobra — e que só e tão-somente por tal razão acabariam sendo forçados — coitadinhos! — a recorrer aos escravos africanos — que, aliás, lhes acorriam de joelhos a implorar por serventia — afinal, que outra coisa poderiam mesmo fazer?

É óbvio que aquele professor não contou tal estória desta exata maneira. Na verdade, ele o fez empregando muita palavra difícil e técnica — tal como “linguística” e “neoliberal pós-moderno” — que só eruditos como ele conseguem realmente entender. Não, nós. E justo por isto mesmo todo o mundo lhe respondeu amém. Mas, não a minha amiga. Que dando algum voto de confiança ao que venho já algum tempo lhe tentando transmitir à respeito do fiozinho de cabelo que apenas nos falta para nos tornarmos um povo realmente livre, continuou e ainda continua a enfrentá-lo. E a insistir numa postura mais cética e desafiadora em relação a tal típico gênero de subserviência cultural. E o faz muito bem! Será preciso explicação complicada e terminologia técnica para se entender que a versão dum império sobre a sua própria história jamais poderá ser verdadeira ou ela obviamente o condenará? E, afinal, quem é que ainda não sabe que o que vivemos há 500 anos não passa disso: imperialismo, tirania, dominação — use a palavra “linguística” que quiser? E, mesmo no caso, para que serve uma sabedoria que nos mantem na servidão?

Assim, tentando apoiá-la, lá fui eu à internet à procura dos grandes doutores da própria academia imperial. Que lá na sua altitude inatingível se podem dar ao luxo de não ter necessidade de inventar estória tão cabeluda assim — pelo menos, entre eles. Não que eles não mintam também — muito pelo contrário! É que mentiroso em terra de mentiroso tem que ser mais sofisticado do que os mentirosos daqui, acostumados a pintar e bordar com a boa-fé de gente crente e boa como a nossa que nem consegue imaginar que possa haver tanta maldade assim no mundo. Seja como for, a verdade é esta: que mesmo sem precisar contestá-los muito, o que eles próprios admitem da própria safadeza e malvadeza que vêm perpetrando quase ininterruptamente há milhares de anos já nos seria suficiente para revolucionar tudo o que aprendemos na escola e na universidade daqui.

O problema é que é tudo em inglês. E eu não tenho tempo de traduzir tudo sozinho. Até mesmo na Wikipídia, enquanto um artigo em português tem meia dúzia de parágrafos, o seu congênere em inglês, tem vinte ou trinta vezes mais. E foi assim, tentando encontrar confirmação autorizada também em português, que acabei me batendo com ninguém menos do que Mércio Pereira Gomes. Que não diz nada que a gente já não o saiba ou desconfia. Mas que rompe com esta covardia intelectual reinante na nossa academia e proclama em alto e bom som que afinal nós estamos certos. Que a minha amiga está certa. E que aquele professor-de-meia-tijela não passa, no fim de contas, dum lambe-botas de coronel que, de tanto perder tempo com atividade tão insalubre, nem sequer tem tempo de estudar com deveria. Aliás, é isto o que Milton Santos diz aqui:

“A capitulação dos intelectuais é um fenômeno internacional já antigo e que se agravou com a globalização. Isso de alguma maneira perdura com a democracia de mercado de hoje. A intelectualidade brasileira se organiza através de grupos fechados que necessitam mais de fazer pressão, para sobreviver, do que de se reunir para pesquisar. Por isso tendem a se aproximar do establishment, o que reduz a sua força de pensamento, imaginação e crítica. Isso equivale a capitular. No Brasil, há exceções, mas essa síndrome precisa de uma cura urgente.” — http://www.nossosaopaulo.com.br/Reg_SP/Educacao/MiltonSantos.htm.

Entretanto, voltando àquela cantiga-prá-boi-dormir sobre os índios do professor obcecado em lustrar botinas de militares — conversa! O Brasil e as Américas eram mais ou menos tão densamente habitados quanto a Europa. E os índios é que eram galãs e saudáveis — enquanto os santos-do-pau-oco lusitanos: raquíticos, doentios e sujos. E tal escumalha teve de recorrer a africanos sequestrados, traumatizados e escravizados porque o índios, mesmo sendo por eles dizimados quase na totalidade — à tiro ou à epidemias muitas vezes maquiavelicamente provocadas — não se rendiam de tão valentes que eram e ainda são. Aliás, mesmo os Africanos, após uma década ou duas, tendo se recomposto do trauma do sequestro, da perda da família, da tribo, da língua, acabavam por fazer o mesmo. Donde: quilombo atrás de quilombo. A questão é que aqueles supostos colonizadores não passavam na sua grande maioria de piratas mesmo: bandidos, assassinos, estupradores, ladrões, e por aí vai: gente realmente ruim e perversa. Ou seja: era terrorismo que consistia a principal arma deles, nem tanto a espingarda.

Mas, quem sou eu para estar aqui a lhes contar esta história quando vocês têm o próprio Mércio para isto? Pois, no fim de contas, sem ser em inglês, um dos poucos intelectuais que no Brasil têm tido a hombridade para desmascarar toda esta farsa de 500 anos é ele mesmo. Se não sabem quem ele é, não seja por isto — eis aqui tudo sobre ele:

“Pode ser que o 7 de setembro de 1822 tenha sido uma data meio fictícia, arranjada para valorizar Dom Pedro I, e não os brasileiros que se determinaram a fazer a Independência do Brasil (…) mas o 7 de setembro de 1910 foi a data verdadeira da inauguração do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. (…)

Deveríamos todos nós estarmos comemorando essa data memorável. Todos nós, digo, o Estado brasileiro, (…) e acima de tudo os povos indígenas brasileiros que sobreviveram ao holocausto de 500 anos que lhes foi imposto.
Ao invés, nada está acontecendo, nada acontece. Depois que não se reclame que brasileiro não tem memória. Porém digo que não é a falta de memória, pois muita gente sabe dessa data, e esse Blog não cansa de relembrá-la, mas sim, falta de vergonha e de responsabilidade histórica (…) que a faz deixar passar em brancas nuvens.”

100 anos de indigenismo rondoniano passam em brancas nuvens,
Prof. Mércio Pereira Gomes
7 de setembro de 2010
http://merciogomes.blogspot.com/
(Quem é o Mércio?)
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9rcio_Pereira_Gomes
http://www.google.com.br/#hl=pt-BR&source=hp&q=m%C3%A9rcio+pereira+gomes&btnG=Pesquisa+Google&aq=f&aqi=&aql=&oq=m%C3%A9rcio+pereira+gomes&gs_rfai=&fp=34aa02b89872e7ed

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